O tribalismo e a opinião pessoal

 Foto: Joshua Fuller

 

Você já se perguntou de onde vem as suas opiniões e quanto delas têm algo realmente seu? Muito além de ser capturada por uma notícia fake, boa parte da nossa opinião pessoal é resultado direto de um tribalismo - com o perdão da palavra - burro. Imaginemos o cenário das eleições, imaginemos, sobretudo, que já elegemos nosso partido e ele é azul. Você entendeu o que quero dizer.

 

A pergunta que não quer calar é: quanto do discurso dos azuis eu fui conferir pessoalmente antes de apoiar as notícias que recebi em minha timeline? Aposto que você secretamente fez a varredura e chegou muito próximo de… nenhuma. Ou talvez três, que é um bom número, mas infinitamente menor ao seu número de notícias compartilhadas sem a devida conferência.

 

O curioso é que na década de 60, o texto "Os efeitos sociais da comunicação coletiva”, de Joseph Klapper já apontava uma pesquisa de comunicação que descobriu que as pessoas apresentam uma tendência maior a consumir conteúdos que exponham pontos de vistas afins de seu agrado e que ignoram todos os demais. De igual maneira, o estudo citado à época também revelou que a percepção e interpretação são seletivas.

 

Quando trazemos esses fatos para a realidade atual, mais em específico à realidade digital das redes sociais, os dados reafirmam o enunciado. A título de curiosidade, digo mais: em 2015, o site Social Midia Today publicou uma matéria com base no infográfico da Go-Gulf, que mostrava os assuntos mais compartilhados pelas pessoas nas redes sociais até então. Na matéria original, What People Like to Share More on Social Media, os dados mais interessantes apontam que 43% do conteúdo compartilhado nas redes sociais era à base de imagens e 26% dos conteúdos expressavam opiniões. Temos então uma verdadeira profusão de “mais do mesmo” em diferentes formatos e vozes, sendo compartilhada por amigos que também são, em sua maioria - adivinhe - pessoas que pensam igual a você.

 

Na abordagem sociológica, é possível entender esse fenômeno no conceito de Weber. Em conversa com o professor Josué de Souza, vimos que Max Weber, em sua teoria da sociologia compreensiva, nos diz que a sociedade parte da ação dos indivíduos, indivíduo para o grupo. Ou, nas palavras do professor, a ciência legitima alguém ou uma instituição para que esta tenha credibilidade e poder. Quando relacionamos com os grupos, é como se também estivéssemos legitimando um grupo em detrimento de outro.

 

Isso tudo nos leva ao conceito de tribo: pela necessidade de pertencimento, nos organizamos em torno de um sistema, um conjunto de valores e nos unimos a pessoas que sejam o mais compatível o possível dentro desse agrupamento. Na prática, o tribalismo nos leva a favorecer os indivíduos do grupo interno em detrimento dos indivíduos de grupos externos. Como aborda a psicologia social, ingroup e outgroup, respectivamente.

 

 Foto: Sean Quinlan

 

Do ponto de vista cognitivo, existem explicações bastante palpáveis para a efetivação do tribalismo. Uma matéria do The New York Times que foi publicada ano passado na Folha de São Paulo digital, de Benedict Carey, expõe que as conexões cognitivas se dão de modo automático. O texto centrado na circulação de fake news, diz que os preconceitos individuais são tão importantes quanto a hierarquização e as escolhas na hora de espalhar notícias falsas. Isso ocorre porque entender o que uma mensagem está transmitindo "requer uma suspensão temporária da descrença". Na mesma matéria, podemos destacar 3 grandes apontamentos do estudo citado de Seifert, professora de Psicologia da Universidade de Michigan, EUA: 1 - as pessoas tendem a valorizar a informação e os julgamentos dados pelos bons amigos sobre todas as outras fontes; 2 - ver um tema sendo replicado por vários amigos, reforça a ideia de sua credibilidade; 3 - “a natureza casual, social e sensacional de olhar as mensagens e participar de trocas digitais permite que essas tendências operem sem controle”.

 

Note que todos os apontamentos nos levam à reafirmação do comportamento tribal. Na esfera digital, podemos comparar o tribalismo ao “filtro-bolha”. Quando nos reunimos em clusters - agregados de nós na rede -, a teoria de Raquel Recuero, jornalista, professora e pesquisadora do PPGL e do Curso de Comunicação Social da UCPel, nos diz que “a informação compartilhada pelo grupo tende a ser homogênea e, frequentemente, redundante, pois os ‘nós’ dentro do grupo têm acesso às mesmas fontes que trocam e reforçam o mesmo conjunto de informação”. Outra questão citada pela pesquisadora são as chamadas “câmaras de eco”, que, na teoria de Cass Sunstein, professor e pesquisador da Universidade Harvard, são a tendência de formação de grupos fechados ao redor de determinadas ideias, onde basicamente os indivíduos do grupo se engajam em discussões com outros que reforçam os seus próprios pontos de vista.

 

Ou seja, se agrada você, essa é a sua verdade. E se você tem as suas referências familiares, amigos que também aprovam e compartilham mais do mesmo, quando é que se dará ao luxo de desconfiar de tal verdade? Fica difícil responder essa.

 

A questão a se refletir aqui é que a minha verdade não é absoluta, tampouco a sua. Essa matéria foi inspirada em uma coluna assinada pelo Alex Castro, que fala sobre isso. No texto, o escritor expõe que o mundo não é preto no branco, ou azul e vermelho (referenciando a problemática política brasileira). A verdade tem muitas facetas e é preciso conhecer mais das suas variações para não incorrer em afirmações medíocres a partir de fragmentos incompletos.

 

O lado bom do tribalismo é estar entre os meus, pertencer a um grupo, dividir um território ideológico em comum e ser bem recebida quando expresso minhas opiniões. Mas aqui cabe avaliar quanto disso verdadeiramente me beneficia ou torna reduzido o meu pensamento. Sabemos que quanto mais amplas e divergentes forem as minhas conexões, mais próximo de um todo eu estarei. O interessante é que quanto mais eu leio sobre tudo um pouco, menos afirmações cegas eu faço - ou, parafraseando Sócrates, tudo o que sei, é que nada nada sei.

 

 

 

Isso ocorre porque uma opinião é uma convicção, ainda que ocorra em uma esfera de menor impacto como um simples diálogo entre amigos. É preciso conhecer o máximo possível de sua abrangência para afirmá-la.


Portanto, não é por meio de um único fragmento que ela ganhará sustância, não é na vivência de uma tribo que encontrarei contrapontos para formular minha opinião de forma mais completa, a bolha social não pode me beneficiar nesse aspecto.
Quanto mais eu diversifico meu consumo de conteúdo, maior a probabilidade de me tornar 
independente da tribo. Uma hora ou outra eu me desprendo do grupo a partir da expansão de minhas ideias. 


Na esfera social, desenvolvimento coletivo e individual são vertentes que acontecem em paralelo. Considerando o percurso individual, não seria este o caminho natural a se percorrer?

 

Não se trata de não ter opinião, mas de conhecer o outro lado antes de formulá-la.
E para se conhecer, é preciso se aprofundar. Traço aqui o mesmo paralelo ao compartilhamento de notícias falsas na rede: somente escapa ileso a elas quem se dá à averiguação. Em tempos de superficialidade, quem vai ao cerne das questões
é um verdadeiro garimpeiro. Ainda que não seja uma atividade para todos, é preciso primeiramente desejar o ouro para só então se dar a reconhecê-lo.

 

Referências

 

https://goo.gl/uRMJY8

https://goo.gl/2MCZ5J

 

P.: Esse texto será publicado também na RevistaJob, do curso de Publicidade e Propaganda da FURB - Universidade Regional de Blumenau.

 

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